1 de abril de 2007

passam na caixa cinza
sangue por dentro do ferro
caixa fechada
coberta de lágrimas [lacrada com lágrimas]
choram crianças sem saber
- pais e mães mortos -
que é que se vai dizer?

conviva-se, então, com as tragédias
televisionadas
as mães enquadradas com suas dores
escancaradas
arrancam-se filhos num dia,
e os pais se vão no outro...

até quando chorá-lo-emos
até quando?
quantos pais e mães sofrerão?
quantas crianças - sem eles -
ainda hão de haver?
quantos lutos, quantos hélios,
quantas rosas, quantas mortes,
quantos adeuses ainda veremos,
meu Deus?


me resta, como disse o poeta
a esperança de que meus
dessemelhantes possam
- um dia, se espera... -
aprender.

e resgatar aquele
sentimento que foi
perdido
do lado de lá...

29 de março de 2007

distrações

Silêncio no mundo cheio
Silêncio no meu mundo - alheio
a esse que todos vivem -

Penso e minha mente voa
espio todos do ar
respiro e daqui o ar voa

livre de seus medos
acaricia seus dedos
olha pro horizonte...

vivo de distrações loucas
até que a mente se encheia
pisa no mar e voa...

"levante, menino, olha pro alto!"

22 de março de 2007

Perfuma-me

Jogam-se pensamentos no ar
Voltam-se devaneios pra ti
Pensa, fala, sentem por ti
Pegam seu perfume no ar
Jogam-lhe de lá

Pra que eu sinta de cá
da minha janela

Jorram-se as margaridas
pensa-se em flores
pétalas e fragmentos de
tulipas, flores de cerejeira e
almíscares

tu és linda, lias pra ti
meus versos e meus devaneios
de um amor perfumado
com sabor de felicidade
de uma poesia tamanha
que não vai caber
nem no infinito da eternidade...

13 de março de 2007

metalingüistica

Hoje é dia de dor no peito
sinto, e meio sem jeito pressinto:
- Vai nascer uma poesia.

Hoje há um incômodo tão grande
uma angústia, diria
Meu coração está pequeno
entre esses gigantes
- Está para nascer uma poesia.

Vem com o vento, a brisa, o ar
o céu azul-cinza
o monte de ondas no mar

Está nas flores que cortejam a praia
na amarelice melancólica dos jardins
e assim está.

De mim, pede nada mais que o momento
p'ra que possa libertar-se
pede-me:
"faça com que eu surja!"
"Torne-me parte do mundo!"
[bote-me-
[pra-fora-]
[germine-me!!]

Como o amor, a vida
a alegria, a canção
a dor
Liberte-me! [Purifique-se]
Torne-se.
[Liberte-se]
Vá,
e viva por ti


Poesia.

7 de março de 2007

"If i could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way"

agulhas nas mãos
sentimentos corróem
será que ainda sinto
o que um dia fui?

vês, que será
que me transformei?
larguei a vida,
esqueci de mim,
dos planos, das idéias
dos fatos, dos sonhos

p'ra me machucar hoje
p'ra me render
[sim!] a falta do amor
(de mim mesmo)

a falta de piedade [à mim]
ao esquecer
de tudo que me compõe
a vida me fez esquecer

e tudo pode ser seu
pois a certeza que me resta
é que deixar-te-ei triste
com minhas chagas repartidas...

*Recomendo a leitura ouvindo Johnny Cash - Hurt.

6 de março de 2007

uma explosão interna
acabou de começar
no que há de mais
eu-em-mim

Será que é o inebriante
perfume das periandras
dos serafins?

será que alguém mais
escuta isso?
Ou será, como tudo,
mais um devaneio?

pelos sem-fins do
pensamento que a
mim se desprende
explosões inquietas,
mentes tentando o alerta
por portas que nunca
se pensaram abertas

por entre as pequenas
pétalas que tu hás de ter
deixa-te que tu transpareça
voa, vai, deixa existir,

nunca feneça...

4 de março de 2007

à tristeza de marcela

Marcela, menina bela
a gravidade da vida
te viu nascer

carrega em ti algo de sonhar
algo de amar
com uma tristeza que é de ti
assim tão particular

talvez nos olhos ela traga
a angústia - e a esperança -
e no coração a certeza:
há que se ter nessa vida
menos melancolia e
mais pureza

esconda dentro de ti as lágrimas
encha sua alma e voe
esqueça que a vida é grave e viva
esperança, menina, nunca perca-a...

28 de fevereiro de 2007

de quando se anda

enquanto a mente
vaga pelo espaço
pés com qualquer coisa
pisam no asfalto

jogam lama pra cima
lamúrias pra baixo

mentes atuam
na surdina
gritos, ecos, brados

senhores austeros
e seus pés descalços
velhas e seus buços
imensuráveis
à praguejar ao infinito

das calçadas, das vielas
e dos becos
as ruas trazem
marcas efêmeras
de sapatos passageiros

e de mim, tenho como par
meu suor, a lama e o ar.

24 de fevereiro de 2007

torrencial

chove lá fora
e as lagrimas se escorrem
nas janelas
da alma e da rua

o tempo limpa e renova
a chuva cai com as lágrimas
de um deus acima
que junto com o homem (impuro)
chora

refresque seu corpo e sua alma
água
chore chuva chove chora
molha

apenas deixe-se [desapareça]
leve-se p'ra longe daqui
esqueça-se por [perca-se por]
um milésimo

conheça-se.
a ti e a chuva.

(22.02.2006)

18 de fevereiro de 2007

do carnaval

no mangue daquela carne
o homem encontra o charque
agarra e vem com fome
sacia-corre-pega e some.

pega-some
saciafome-some
some o amor some a dor
no segundo grudado
no calor, no calor.

e pulam-se, gritam-se, riam-se
e beijam-se denovo
e saciam-se
enchem suas bocas vazias
com outras cheias de nada

"eles apenas vivem o momento,
camarada."

peguem mais, peguem mais
essa energia contagia,
escondam-se na efeméride
a que chamam,
por seis dias,
de reino da alegria.

Hai-kais

do topo de si mesmo
topa com ele
vi você a esmo.
-
marca prata-brilhante
enfeita os dedos vermelhos
da mão voluptuosa da amante
-
queima uma linha de verso
finge que vê o mundo
estás é com o universo
-
ser sujo imundo
prezam ruas limpas
mundo, vasto mundo.
-
opções de postagem?
devo eu dizer-lhes
falta-me a pastagem.
-

11 de fevereiro de 2007

sete quilômetros

das lágrimas da mãe
correm os sonhos
de uma vida-à-acontecer

de um futuro-à-acontecer
de um riso não dado
de um batalhar inexistente
de um dente mole
da primeira namorada
das discussões nunca feitas
dos segredos partilhados
com quem nunca saberá disso

a vida, que nos é dada simplesmente
e perdida assim, violentada, ah sim!
de um menino que sentado no carro
era um inocente sonhador.

verta suas lágrimas hoje, ó mãe!
pois o que te posso oferecer é silêncio.
silêncio e rosas.

(escrito agora,por mim, as 2.09pm)

6 de fevereiro de 2007

respiração e silêncio
quieto e mudo
ouve distante
barulho do mundo

barulho do mudo
ouve quieto
silêncio distante
respiração do mundo

mundo?
respiração?
silencia-te,
ouça-o.

30 de janeiro de 2007

horas perdidas

enquanto o menino chora
eis que a amada bate
pare! pare! - e implora

a custo de que
uma dor como essa?
se nem ao menos
sabe ele se há algo
que lhe interessa?

"reparto a dor com o silêncio"
faço do nada
o meu maior espectador.

10 de janeiro de 2007

o ano é novo

é bom escrever pro ano que chega

menino pequeno que já vem com uma pequena carga de veneno

e de bálsamo, também...
(tão escasso hoje)
já nasceu com uma lágrima e com um rompante de risos
(uma lágrima? várias)


já nasceu clamando o pão e dando circo

dando a água e afastando o cálice

celebrando a vida e lamentando a morte

chorando lágrimas de sal

admirando sorrisos doces

com o suor da testa dos humildes, o calo no pé dos que espremem suas almas

dos que espremem suas almas nessa caverna a céu aberto

com a mão molhada dos oportunistas, o pé no pescoço dos ganânciosos

nasceu tentando não morrer no meio do caminho.